sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O Presente - um Conto de Denis Cruz


Ilustração de Felipe Carmo*
Num país distante, bem diferente do meu e do seu, vivia um velho homem. Ele era muito rico e tinha vários filhos, mas nenhum deles morava em sua casa, pois estavam espalhados por todos os lugares da Terra.

Quando o natal daquele ano se aproximava, o velho homem separou do melhor que havia em seus bens e enviou para cada um de seus filhos. Junto com cada presente, mandou uma carta, falando o quanto amava e sentia saudade de todos. No fim da carta, o velho pai dizia: “Filho, nesta caixa, envio-lhe o que há de mais precioso para mim. Neste natal, eu também gostaria de receber um precioso presente seu.”

Os pacotes coloridos e as cartas de amor foram espalhados por todo o vasto mundo, chegando até a casa de cada um de seus filhos. Alguns receberam com alegria e guardaram para si o presente do pai. Outros venderam o presente e fizeram dinheiro com ele. Outros esconderam para que ninguém visse e alguns deixaram no melhor lugar da casa, para que todos que nela entrassem pudessem contemplar a beleza sem igual do presente do pai. Houve até alguns que sequer abriram as belas caixas, ou leram a carta de amor, pois ou não amavam mais o pai, ou estavam muito ocupados para isto.

Quanto às últimas linhas daquela carta, alguns filhos fingiram que não as leram. Um deles até racionalizou: “Meu pai não precisa de nada de mim, pois é homem rico e já possui tudo o que há abaixo do céu e acima da terra.” 

Houve, também, vários tipos de respostas: presentes diversos, enviados por mensageiros; cartas cheias de promessas e de palavras – uma delas dizia “Eu também lhe amo, pai. Um dia desses vou até sua casa, para conversarmos.” Outra falava: “Preciso confessar que ainda não compreendo as coisas que faz. Não tenho vontade de falar com você, muito menos de chamá-lo de pai.” 

Porém, um dos filhos, chamado João, ao receber a carta e amar o presente, ficou aflito, pois não tinha nada para dar ao velho pai. Era pessoa pobre e mal conseguia prover o próprio sustento. Leu novamente cada linha da carta de amor e chorou, pois queria muito presentear-lhe com algo de grande valor. Pensou em escrever ao pai, mas seria vergonhoso confessar, por um mero escrito, que não tinha nada para oferecer.

João vendeu, então, o pouco que tinha e saiu pela na estrada. Iria até a casa do pai para dizer-lhe, pessoalmente, que não possuía nada de valor para recompensar-lhe o grande amor. A viagem foi longa e difícil, sofrendo com calor do dia e com o frio da noite. A fome foi uma companheira constante e o desânimo parecia estar vencendo a cada dia.

Apesar da dura viagem, João lembrava-se sempre do sorriso do pai e de quanto era amado e de quanto o amava. Isso o fazia se levantar e caminhar novamente. 

Certo dia, quando já não tinha mais forças para continuar, um homem lhe encontrou e disse: “Eu conheço seu pai. Sei quem ele é e também sou um servo dele.” Após essas palavras, o homem dividiu o pão com o viajante, deu-lhe um pouco de seu dinheiro e cobriu-lhe com seu próprio manto. João pode, assim, continuar sua jornada.

Quando finalmente alcançou a colina onde a grande casa do pai estava, João sentiu medo. Será que o velho homem o receberia daquele jeito, sujo, maltrapilho e de mãos vazias?

Enquanto o viajante ainda pensava, o pai, da varanda da grande casa, o avistou. Veio em sua direção e o abraçou e o beijou entre lágrimas, chamando-lhe pelo nome: “Meu João! Você veio! Toda a minha casa, toda a minha terra, tudo o que tenho, agora pode ser seu!”

- Vim de mãos vazias, meu pai – disse João, desviando-se do olhar sorridente do velho homem. – Vim para dizer que nada tenho para retribuir todo seu amor. Eu não trouxe nenhum presente precioso para lhe dar, querido pai.

O homem deu um sorriso quente e atrás dele brilhou o sol poente, lançando raios vermelhos por entre as madeixas de cabelos brancos que pareciam, agora, serem chamas incandescentes.

- Você, meu filho, é o meu presente mais precioso.

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* Felipe Carmo é o artista que nos presenteou com a ilustração deste conto. 

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FELIZ NATAL, 
QUERIDOS IRMÃOS DE JAÚ.

Denis Cruz

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